Em Abril de 2006 fomos procurados por um tipo de cliente inédito até o momento: a equipe de organização de um Reality Show, que nos convidou para participar fornecendo insetos vivos para um “tipo de gincana” que seria realizada.
Diante do pedido incomum, e da grande quantidade de insetos solicitada, nos comprometemos a levar pessoalmente a carga de mais de 250.000 insetos vivos de Belo Horizonte/MG até Teresópolis/RJ (cerca de 1000km ida e volta).
Alugamos um utilitário para fazer o transporte dos insetos em condições adequadas. Foram necessárias 2 viagens numa Fiat Doblô, com caixas de insetos até o teto e no banco de passageiros!!!
Vale relatar alguns momentos bastante tensos, e alguns cômicos.
Cerca de 2 horas após a saída de BH, e uma acidental passagem mais rápida por um quebra-molas sem sinalização, fiz uma parada para verificar como estavam as caixas com os insetos.
As 14:00h, quando abri a porta traseira da Doblô, a minha surpresa: um “mar de larvas” sobre meus pés! As caixas haviam inclinado, e milhares de larvas começavam a se espalhar pelo chão do carro; e, além disso, o dia estava muito quente e o ar condicionado não estava sendo suficiente para manter a temperatura amena em algumas partes do carro. A saída que encontrei foi parar no primeiro motel e organizar tudo novamente.
Passei as 6 horas seguintes re-dividindo as caixas, refrescando os insetos e catando todos que consegui encontrar no chão do carro e na garagem do motel.
Tudo novamente arrumado no carro, e seguimos viagem para Teresópolis. Por volta de meia noite, um novo susto! Uma viatura da Polícia Federal passou “voando”, e cerca de 1km depois, estava ela parada, com os patrulheiros no meio da estrada sinalizando para que eu parasse.
Infelizmente a produção comercial de insetos no Brasil ainda é uma novidade pra grande maioria das pessoas, e mesmo sabendo que toda a documentação do carro e da carga estavam OK, não era possível prever qual seria a reação dos patrulheiros nessa abordagem inusitada.
Tudo ocorreu muito bem, consegui ser claro e convincente, conferi a rota com os policiais e continuamos a viagem.
A chegada no local combinado só ocorreu por volta das 3 horas da manhã. O responsável pelo pedido, Prof. Jayro, nos aguardava com sua equipe, e nos dirigimos para a sede da “gincana”, onde os insetos seriam alojados.
Seguimos na Doblô eu e Prof. Jayro, e saímos da rodovia para pegar uma estrada de terra até a fazenda. Durante o caminho, uma lata de coca-cola esquecida no painel caiu no chão do carro e explodiu! Eu e o Professor, cobertos de refrigerante, de madrugada, fazendo uns 15 graus lá fora...novamente peço desculpas Professor!
Mas nossa conversa sobre criação e comportamento animal estava tão fluente que o fato rapidamente foi deixado de lado.
Chegamos à fazenda e outra surpresa: primeiro vi um palco gigantesco montado no meio da fazenda. Ao lado do palco, espalhados na beira de um rio e até morro acima, dezenas de containers e motores geradores de energia. A primeira guarita com seguranças, depois uma segunda e uma terceira. Estava realmente impressionado com a dimensão da “gincana” que eu estava conhecendo.
O Professor havia preparado um container especialmente para abrigar os insetos, com temperatura, iluminação e umidade controladas. Nesse local foi possível ver algumas das outras espécies que iriam participar das provas, como borboletas, formigas, bichos-da-seda, besouros e moscas. Tudo proveniente de cativeiro, de outros criadores que o Professor havia conhecido durante décadas de atividade profissional como especialista em comportamento animal de espécies exóticas e silvestres.
No dia seguinte é que pude entender porque aquele local havia sido escolhido para esse evento: um clima frio, uma vegetação densa e bem conservada cobrindo a base de belas montanhas, lindas cachoeiras e construções com estilo europeu faziam daquela região um presente para os olhos.
Durante o café da manhã soube que a gincana na verdade era um “reality show”, e os participantes celebridades francesas, que ficariam num acampamento na fazenda durante duas semanas, sujeitos aos mais variados tipos de provas e contratempos. A filmagem e produção do programa foram feitas pela Rede Globo, e o programa seria transmitido apenas na França.
Obviamente não havia autorização para conhecer os locais de provas, os participantes ou mesmo saber como nossos insetos seriam utilizados. Soube apenas que após o final do programa, seria possível ter acesso a alguns episódios pela internet.
Não sabia nem ao menos o nome do programa. Mas a vontade de ver como se “comportaram” nossos insetos na TV francesa era tanta, que iniciamos uma busca “frenética” por informações na internet, até acharmos o que queríamos.
O reality show se chama “Sortez moi de là - je suis une célébrité !” ou “Tirem-me daqui – eu sou uma celebridade!”. Foi um sucesso de audiência, assistido por milhões de pessoas na França, e nossos insetos participaram de maneira exemplar durante todo o programa, em provas de “coragem” e nos “banquetes exóticos”.
Esperamos com esse relato mostrar aos leitores e criadores mais um dos possíveis nichos de mercados que empresas especializadas na “Produção Massal de Insetos” podem ter. Apesar de ter sido a única venda desse tipo que fizemos em 5 anos de criação comercial de alimentos vivos, essa possibilitou aos nossos insetos terem seus 15 minutos de fama perante milhões de pessoas, ainda que ninguém no Brasil tenha visto...