Imagine a seguinte situação: chegar a um restaurante e solicitar um prato requintado da casa. No Amazonas, a especialidade poderia ser um pirarucu à delícia, mas, no Japão, o recinto certamente ofereceria uma outra iguaria: insetos.
Apreciadas e reconhecidas por seu potencial protéico e sabores exóticos, algumas espécies de insetos já fazem parte do cardápio diário de milhares de pessoas. Mas essa rotina, um tanto quanto diferente, ainda não “contaminou” boa parte dos países, inclusive o Brasil que ainda hesita em aventurar-se por essa recente vertente da culinária. É o que afirma a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Beatriz Ronchi, doutora em Entomologia. “Hoje em dia, existem várias culturas que se alimentam de insetos. No México, na Ásia e em outros locais, já se pode observar a comercialização de insetos para a alimentação. Eles são uma iguaria exótica”, explica Ronchi.
A pesquisadora ministra aulas no Programa de Pós-Graduação em Entomologia, oferecido pelo Inpa. Nesse curso, existe uma disciplina intitulada Potencial Econômico dos Insetos, que aborda questões como a criação desses animais para fins comerciais (venda de exemplares exóticos e raros), para alimentação, estudos da biologia, criação de abelhas, entre muitas outras finalidades.
Ronchi é a responsável pela parte de “Entomofagia” (onde entomo significa inseto e fagia quer dizer digerir, comer). Como a disciplina trata do potencial econômico desses seres, a venda de insetos para alimentação seria uma nova e eficaz alternativa rentável para a população.
No entanto, o progresso nessa área esbarra em um obstáculo que tem sua origem nos primeiros anos de colonização. “Existe um problema cultural na sociedade, especialmente a ocidental, que abomina o consumo de determinados alimentos, de acordo com a fonte de origem. Isso não quer dizer que as pessoas deverão passar a comer qualquer insetos, até por que alguns são venenosos ou até mesmo de péssimo gosto. Parte dessa aversão tem explicação no próprio hábito alimentar dos europeus, nosso colonizadores, que já apreciavam o consumo de carne de origem bovina ou de galinha”, ressalta Ronchi.
Além dos insetos em sua forma adulta (gafanhotos, escorpiões, besouros, etc.), é comum o consumo de larvas de vários desses animais. De acordo com a pesquisadora, no Inpa, são criados e estudados algumas espécies de larvas para outras finalidades, mas elas poderiam ser usadas para consumo da população como é feito no México, por exemplo. Neste País, algumas larvas de moscas são matérias-prima para ser utilizada em cremes, sopas, tortas e farinha, cujo potencial protéico é equivalente à consumação de outras carnes.
No Brasil, essa prática parece ainda estar restrita às populações indígenas da região. “Na Venezuela, os yanomami tem o costume de comer lagartas encontradas nas florestas. Eles enrolam esses animais na folha da bananeira e torram-nas no fogo”, destaca a pesquisadora.
Parte dessa cultura indígena pôde ser observada, posteriormente, no Amazonas e no sul do país, regiões que, segundo Ronchi, abrigam alguns grupos de pessoas com o hábito de comer o abdômen de uma espécie de formiga, as tanajuras, que na época de reprodução potencializam todas as substâncias necessárias para esse processo na parte inferior de seu corpo. Ali, portanto, é formado uma espécie de concentrado protéico, nutritivo e saboroso.
Novas alternativas para o futuro - Investir no potencial dos insetos como fonte protéica alternativa é um desafio estratégico. Imaginar um futuro no qual as dimensões das cidades e os espaços urbanos sofrerão uma intensa expansão às custas de devastações de florestas e ocupação de áreas improdutivas, ajuda a compreender a importância de se adotar novas alternativas de alimentação dos seres humanos que demandem menos espaço e que maximizem a produção em larga escala, reduzindo os custos.
Pensando nisso, montar uma biofábrica de criação de larvas é mais econômico - em todos os aspectos - do que subsidiar a prática da pecuária. O gado necessita de cuidados específicos que acabam refletindo em um maior gasto financeiro. Desde a alimentação, passando pelas vacinas, o local de abate dos animais, até o processo de armazenagem das carnes, garantir o sucesso desse empreendimento sai caro. Em contrapartida, a criação de larvas para consumo necessita apenas de um prédio com vários espaços para o desenvolvimento destas de maneira asséptica, ou seja, sem contato com o ambiente externo. O gasto com a alimentação das larvas é consideravelmente menor se comparado à criação bovina. “Alimentamos as larvas de besouro com ração para galinha. Além dessa economia, o desenvolvimento dos insetos é muito mais rápido do que o de outros animais, como o boi ou a galinha. Em menos de um mês, dependendo da espécie, uma larva está pronta para ser consumida. Um gado precisa de muito mais tempo para crescer e engordar, até atingir condições adequadas para o abate”, acrescenta a pesquisadora.
Não raramente, alguns pecuaristas e agricultores injetam substâncias, como hormônios de crescimento, para acelerar o desenvolvimento dos animais. Essas mesmas substâncias acabam sendo ingeridas pelas pessoas que adquirem essas carnes em supermercados, feiras, etc. Médicos já alertaram para possíveis danos à saúde causados pelo consumo de alimentos nesse estado.
Livres de problemas como esse, os insetos e suas larvas são cotados como uma das fontes de proteína mais natural e saudável a ser apreciada à mesa da população.
Combate à fome – Há alguns anos, o México desenvolveu um programa de erradicação da fome no País por meio da distribuição de um complexo de proteína especial. Ronchi afirma que o País construiu uma grande fábrica de criação de larvas de moscas, fazendo dessa iguaria culinária um importante aliado no combate à desnutrição e fome de sua população. As larvas são torradas no forno e depois moídas, formando uma farinha. “Países pobres ou subdesenvolvidos, como no caso do México, que não têm condições de criar gado ou outro animal para alimentar a população nem tem recursos suficientes para doar cestas básicas ou criar meios de trabalho para que as pessoas subsidiem sua própria sobrevivência, encontraram nesse composto protéico um grande aliado. A farinha é distribuída gratuitamente às pessoas de baixa renda”, diz Ronchi.
No Brasil, existe uma biofábrica na Bahia similar a que funciona no México, no entanto, como explica a pesquisadora, sua criação está condicionada à criação de moscas das frutas para serem esterelizadas e liberadas no campo para controle biológico.
Custo de Produção – Na Ásia, onde existe o costume de se comer determinadas espécies de insetos, os preços de cada prato dessas iguarias varia de acordo com o local. Mesmo assim, pode-se observar a comercialização de insetos tanto em restaurantes famosos quanto em feiras livres. “No caso dos insetos, eles são armazenados secos, não precisam de refrigeração que incluiria gasto com energia. É só ressercar o inseto e vendê-lo seco na feira. Assim, eles tornam-se menos perecíveis”, ratifica Ronchi.
Portanto, gastos com armazenamento adequado, climatização, controle de temperatura são descartados - ou reduzidos drasticamente - se o alimento em questão for um inseto.
Hábitos culturais são os grandes obstáculos - Diante de todos esses benefícios - financeiros e de produção – o problema maior em se investir na criação de insetos para fins alimentares é o cultural, fazer uma pessoa aceitar que está comendo um inseto.